SAC 42 - terceira parte

Voltei à cidade no final de semana seguinte a troca de emails como havia combinado.

Pensei a respeito do que deveria fazer tendo em consideração o período de uma exposição, a real intenção do trabalho e o público visitante.

Achei justo realizá-lo novamente a partir do conceito esboçado no texto da primeira parte desses três posts.

Modifiquei seu local inicial e sintetizei sua apresentação a dois materiais: o plástico já coletado e sacos cheios de entulhos.


SAC 42 - segunda parte

Uma semana após realizar o trabalho houve uma forte chuva e recebi um telefonema da organização.
Respondi por email que tinha que pensar a respeito e que iria à cidade novamente.
Recebi como resposta um email aberto à organização e curadores com fotos em anexo, o qual respondi com o email abaixo:

From:bbaptistelli@hotmail.com

Olá,

Fique tranquilo que não estou descontente com a apresentação atual do trabalho(fotos abaixo), vocês tem se mostrado bastante atenciosos e por enquanto o trabalho deve ser mantido como se encontra.

Na verdade eu entendo que esse seja um momento do trabalho, inclusive esboçado no texto anterior que enviei, mas também em anexo.
Acho que a natureza venceu uma ação humana. (Isso também porque não utilizei, e não costumo utilizar nesse tipo de trabalho, materiais além dos encontrados em caçambas e entulhos)
Me mostra também a dificuldade de inserção de um trabalho geralmente realizado na rua, em uma instituição, sem que isso se dê pelo viés do registro fotográfico, e sim de encontro com a ação e a matéria.
De certa forma, demonstra ainda o momento em que o resíduo retorna a sua qualidade inicial de resíduo, o que acho interessante em termos históricos do objeto de arte.

Bem, o projeto original era para ser realizado dentro do espaço expositivo e só foi realizado externamente porque me foi pedido.
Talvez possa ser uma solução, em termos de manutenção ou apresentação, retornar a idéia original, o que acha?
De qualquer maneira irei à cidade no sábado avaliar pessoalmente se esse momento será incorporado, ou remontado com possíveis instruções de manutenção.
Tudo bem para vocês? Você estará no sábado na Pinacoteca ou alguém da organização?

Aproveitando também esse canal aberto, se possível gostaria de saber a posição do juri em relação ao assunto.

Vamos nos falando!
Grande abraço à todos!

B.

 A organização, como combinado, me mandou as fotos de como o trabalho estava após as chuvas:




SAC 42 - primeira parte

O computador quebrou, queria ter postado sobre o 42 Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba um pouco antes...Serão três posts para falar de 3 momentos do trabalho que fiz por lá.
 
Como forma de apresentação pedagógica do trabalho realizado lá no SAC 42 escrevi o texto abaixo o qual foi enviado aos organizadores e pessoas envolvidas no evento.
 
Rio e Curva do Rio
 
                                  Registro fotográfico do Rio Piracicaba ao término da Rua Morais Barros.

Em meu projeto proposto para o SAC42º manifestei minha vontade de realizar um trabalho que denominei por: objeto/pintura site specif no espaço expositivo da Pinacoteca Municipal de Piracicaba. Tratava-se de um projeto em que me deslocaria para a cidade de Piracicaba, recolheria materiais abandonados na própria cidade, e posteriormente montaria o trabalho tal como dito anteriormente.

Ao ser selecionado para o Salão, fui comunicado por telefone que deveria criar um trabalho para o lado exterior da mesma pinacoteca.

No dia 28 de outubro fui à Piracicaba com pouca ou nenhuma idéia do que iria me deparar naquela cidade. Obviamente, essa situação já era prevista e portanto, tratei de conhecer minimamente o entorno da Pinacoteca e da Rodoviária. Nesse mesmo trajeto, fui recolhendo materiais e observando a paisagem.

Ao chegar ao fim da Rua Morais Barros, rua onde fica a Pinacoteca, retirei a foto acima.

Nela observamos a tranquilidade das águas de um lado, em contraponto à pequena agitação do outro. Essa pequena agitação se dá pelo acúmulo natural de objetos da natureza (pedras, galhos, folhas) e possívelmente de objetos de uso domésticos (restos de móveis, papelões etc.) que ocorre nas curvas de rios. 

Após recolher material suficiente nas caçambas e entulhos da cidade, comecei a manipulá-los na área externa da Pinacoteca, descobrindo o corrimão como possível suporte para uma intervenção.
Nesse momento, a ação de se realizar um trabalho artístico extrapola intenções racionalizadas a priori e apresenta-se como diálogo entre corpo e matéria. Existindo pela manipulação/ relação e deixando como “produto” um registro, resíduo, ou obra.

No meu caso em específico, enxerguei a dualidade existente num corrimão, que divide e determina um caminho, a possibilidade de se estabelecer um paralelo com minha observação do Rio.




Tive ainda a sorte de, ao lado oposto do corrimão, haver uma calha que, obstruída pela materialidade encontrada, interromperia o fluxo de água. Quase como uma ilustração do conceito surgido no decorrer da execução, feito de maneira muito sutil.

                                                                 Calha de escoamento de água proveniente do telhado da pinacoteca
                                                                     Bruno Baptistelli(Beba)
                                                          novembro 2010

Resíduos

A ação, o que gera um resíduo.

Hoje vejo no resíduo uma possibilidade de transição da matéria
-um momento de abertura e não de fechamento portanto.

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Hoje quando pinto é pra gerar um resíduo.
E quando paro, é num momento anterior ao próximo.



Portanto, verifico que uma parte de minha atual produção parte do resíduo.
(uma ação minha, ou de outro, gera meu trabalho (mudança na matéria)).

Sem fio

Acho que, com o tempo de convívio, as pessoas começam a desenvolver novos tipos de comunicação.
Há algum tempo venho me interessado sobre o "wireless" ou o sem fio. Enfim a falta de um meio propriamente físico...

Isso me faz pensar no "ar" existente ao redor das coisas, e como se utilizar deste também para falar, dizer algo.

Na vida existo em pensamentos comuns com pessoas e amigos, principalmente por coincidências que ocorrem na distância. E porque não dizer em conversas realizadas quando se está dormindo, sonhando.

Na arte já não tento fechar o significado das coisas em um objeto, na forma apresentada em si, e sim nas relações que a minha ação/trabalho inicial gera com o seu entorno. Deixando assim livre o espaço para a "interpretação" das coisas que ocorrem nesse "vão".

Por isso muitas vezes escolho o silêncio.